segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Caros leitores,

Como podem perceber, não tenho atualizado o blogue nos últimos tempos, mas não é por falta de tempo. Este é curto, porém o há.

A grande questão é que, após dois anos, resolvi refletir em tudo o que foi escrito por aqui. Cheguei, enfim, na conclusão de que, apesar de ter sido um imenso aprendizado, muitas postagens minhas já não condizem com a minha forma de pensar, pois passei por uma grande revisão das minhas convicções. Hoje, gosto de poucas coisas que eu escrevi aqui.

Mas, então, eu me arrependo? Jamais. Como citei anteriormente, foi um processo de aprendizado e evolução, e sem isto, talvez seria alguém muito diferente - para pior. Quando cito isso, não é que me considere na plenitude de meu desenvolvimento como ser humano. Longe disso. Neste constante aprender que é a vida, creio que nunca chegaremos ao topo. Ainda bem, porque não queria ver por aí indivíduos se achando senhores da razão (apesar de já encontrar vários tipos desses por aí).

Concluo meu esclarecimento notificando que o blogue não será apagado. Continuo a me expor deixando meus poemas antigos (e isso já é se expor deveras), deixando que as pessoas visitantes deste endereço concluem por elas mesmas como este que vos escreve pensou desde 2006, e, de certa forma, ainda pensa.

Caso eu me empolgue novamente, voltarei a postar. Não sei se é a melhor maneira de mostrar minha arte, mas pelo menos é a mais conveniente para mim. Acontece que, por relativa timidez e falta de traquejo em mostrar meus poemas, eu tomei esta nova postura. Ela é meio tola, confesso, mas, quem sabe um dia eu a deixe de lado para voltar a escrever aqui.

Enquanto isso, deixo um abraço a todos,

Eduardo Dalcin.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

COSMOPOLITA

Moro na casa feita pelo arquiteto alemão,
de traços modernos e paredes sólidas.
Saio dos meus lençóis de algodão egípcio,
coloco o meu terno italiano
e vou trabalhar na minha empresa,
cuja matriz encontra-se nos Estados Unidos.

Interrompo meu trabalho para almoçar
com meus colegas naquele restaurante japonês.
Conversamos basicamente sobre futebol:
torço para o time inglês, comprado por um
xeique árabe em transações nebulosas.
No meu time, há jogadores
nigerianos, angolanos, brasileiros...
Bons jogadores.

Voltando do trabalho, informo-me
da guerra entre israelenses e palestinos.
Sei (e não sei ao mesmo tempo) tudo
a respeito de um lugar onde não estou.
Posso saber de qualquer lugar do mundo,
mas eu não sei. Posso ter algo de cada
lugar do mundo, mas não tenho.

Posso conhecer tudo, mas meramente
conheço a mim mesmo...

sábado, 31 de janeiro de 2009

INDÚSTRIA DO BEM

Se Deus viesse à Terra e dissesse aos homens: ''Hei de mudar. O Paraíso existe, mas para alcançá-lo, hei de repartir a bonança entre vós e cultivar o Bem.'', o que faríamos?

Provavelmente, sabendo dessa informação valiosa, iríamos nos articular, aos poucos, para garantir nossa presença no Reino dos Céus. De repente, a possibilidade de um além-vida seguro se tornaria viável. Seria o ''caminho do futuro'', com várias perspectivas de lucro num longo prazo. Investimentos de todos os cantos seriam aplicados no novo ramo. Logo surgiriam empresas dispostas a ''garantir o seu lugar no céu com segurança'', especialistas em praticar o bem, livros de auto-ajuda. Além de chaveiros, bonés, outdoors e todo acessório comerciável disposto em divulgar a causa, patrocinados pelos novos-ricos da indústria do bem.

Ser bom seria cool. Todos acenariam para o próximo: olhariam para o sujeito dormindo na rua, parariam para indagar as injustiças do mundo e seguiriam seu caminho normalmente. O único assunto nas mesas dos bares seria as possíveis formas de se alcançar o Paraíso. Todos querem uma boa eternidade para si mesmos, seus pais e filhos.

Enfim, a bondade seria um produto a ser consumido. O ingresso no Céu custaria alguma fortuna, segundo os novos especialistas, gerando lucros exorbitantes para os patrocinadores do Bem.

domingo, 18 de janeiro de 2009

TRANSPIRAÇÃO

(inspiração
aspiração)

in ......................(inspiração
....(s) piração ......................aspiração)

ás ......................(inspiração
...piração .............................aspiração)

................pira
........................................inspira
..........................aspira

.......................transpira.

ás ........................(inspiração
.......in .............................aspiração)
.................trans(e)

.

pira ................(inspiração
transpira ..................................aspiração)
e suspira


sábado, 17 de janeiro de 2009

RELAÇÕES MONETÁRIAS ESTRITAMENTE HUMANAS

Compre de mim.
(sorriso)

...

Por favor!
(sorriso esticado)

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

COLISEU BRASILEIRO

Garoto passeava de bicicleta.
Repentinamente, encontra-se no chão,
de braços abertos,
acolhido em seu próprio sangue,
no simples asfalto.

Seus olhos estão piedosamente fechados,
surpreendidos por um buraco em sua fronte.
As mãos, abertas de forma delicada,
atestavam a clemência diante do
destino melancólico e cruel.

Coitado, era só um garoto!

Pessoas logo tumultuam-se para vê-lo.
A surpresa e a revolta feriam
um aglomerado crescente de comuns,
como o garoto.
Quem ele é?
Quem o matou? Por quê?
Detalhes não percebidos naquele momento;
e em nenhum momento.
Hoje em dia, é fácil se distrair. Tudo trai.

Chegam os carros da polícia.
A triste luz da sirene incide sobre o pequeno,
cobrindo-lhe de redundante vermelho.
Olhares frios de peritos são lançados
para a síntese do crime, procurando
uma solução, um culpado, um motivo.
Nada será encontrado. Resta o ostracismo.
Mais um cadáver. Mais um, somente...

Após revistado, obtiveram apenas sua origem:
roupas rasgadas,
corpo sujo e
alguns tostões no bolso.
Nome, não tinha.
Família, não tinha.
Não interessa,
a morte é só o que interessa.
A morte vende.
Rapidamente, flashes
agravam as feridas,
buscando o melhor ângulo para o choque.
Todas as formas de se explorar a dor
em um momento.
O circo se propaga.
Canais transmitem:
''Garoto é morto no meio da rua''
Boa notícia.
Renderá semanas e tiragens.
Momento muito oportuno para o surgimento
de críticos de vários tipos,
de entusiastas da paz. O garoto lembrou-lhes
de que a falta dela é rotineira.
Atitudes são cobradas por todos os cantos,
porém não são cobradas no dia seguinte.
Novamente, tudo trai.
Tanto faz. Ele não tinha nome,
não tinha nada.
Apenas o corpo ensanguentado estendido no chão.
No meio do chão. Atrapalhou os carros.
Eis o grande problema.

Após alguns dias chocados,
logo todos se esquecem.
Era só um garoto.
Não tem nome.
Não tem família.
Não tem amigos.
Não tem casa.
Só um garoto.
E as portas do circo se fecham,
à espera do próximo espetáculo
para se abrirem de novo.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

EXISTÊNCIA VEGETATIVA

Vou ao supermercado sem querer ir;
para comprar coisas que não quero.
Não quero, porém preciso.
(preciso mesmo?)
Não só eu. Ninguém queria ir.
Todos angustiantemente fartos,
cotidianamente reclusos,
pois estamos e não estamos no mesmo lugar.

Encaro uma fila que não queria encarar.
Um muro alto de seres cansados e perdidos
como eu. Conseguimos nos perder mesmo
andando ordenadamente um atrás do outro.
Já não há mais fôlego para o pensamento.
A mulher do caixa me encara com um olhar
hostil. Eu a ignoro com assustadora facilidade.
Só queria sair logo deste lugar. Todos queriam.
Se fôssemos de uma só vez, não haveria fila,
não haveria caixa,
não haveria supermercado,
e isso não é possível.
Tenho que esperar a minha vez.
Com impaciente paciência, espero,
enquanto a mulher do caixa passa os
produtos com rotineira morbidez.
Talvez todos aqui estejam meio mortos,
com um suspiro de vida suprimido,
implorando para se libertar.
Calma. Ainda não.
Quando? Não sei. Mas ainda não...

Ando pela rua cansada
com meus passos exaustos.
Tamanho esforço para vencer meu próprio corpo.
Pela minha sobrevivência, pelo meu futuro.
A rua trama contra mim,
insiste em me mostrar o trágico;
ignoro com indelicada indiferença.
O muito percorrido parece pouco.
Desistir ainda é cedo. Ainda tenho que lutar.
Lutar pelo o quê?
Por mim? A cada dia posiciono-me contra.
Do que vale o meu suor?
Dizem que estou ajudando o meu país.
Tudo pelo meu país,
nada por mim.

Ligo no noticiário e vejo homens
vomitando palavras grandiosas porém ocas.
Vendem hipocrisia, pechincham opiniões.
Brincam com o meu mal-estar.
Brincam com a minha distraída atenção.
Forma de massagearem seus egos e seus bolsos.
Não estou presente. Tudo parece coberto
pela angustiante névoa do vazio.

Do insustentável de cada dia,
tiro o necessário para viver.
O necessário. Meu pensamento é secundário.
Não se obtém no supermercado,
não se obtém suportando filas,
não é cobrado como imposto.
Ele se encontra no meu eu,
e por isso é tão difícil obtê-lo,
na minha eterna fadiga.
Enquanto isso, todos vegetam
numa calma assustadoramente verossímil.
Porém, se eu fizer um esforço incalculável,
talvez eu consiga perceber
a esperançosa inquietude que todos carregam.

Enquanto isso, todos vegetam
na incomum normalidade.
Eu faço parte do todo,
e vegeto junto com ele.